Amy Winehouse parecia não pertencer aos dias de hoje
Amy e o nosso mundo se estranharam. A atenção da mídia e o reconhecimento dos milhões de fãs foram um peso que ela não soube como administrar. Parecia às vezes não entender o que viam nela. Se dopava para encarar a multidão. Derrapava em cima dos grandes palcos

Num mundo regido por mediação, imagens construídas, marketing pessoal e a necessidade de “estar bem”, Amy Winehouse brilhou como um meteoro de rocha bruta, desgovernado e destinado a virar poeira numa grande explosão final. Amy não era light e vinha sem filtro. Parecia não pertencer aos dias de hoje.
Os fãs adoravam sua personalidade e perigo, artigos tão em falta no cenário photoshopado e pseudo-rebelde do showbusiness atual. Os mesmos fatores causaram repulsa em tantos outros que, pautados pelo histeria tabloidiana, elegeram Amy a Geni dos nossos tempos.
Amy contrariou a mentalidade da cultura de celebridades ao se mostrar incapaz de ser outra coisa que não ela mesma. Tropeçava, xingava, dava escândalo em público, errava músicas, se arrastava pelos pubs e bares. Virou brinquedo na mão dos paparazzi e atração freak para aqueles que torciam por um desastre.
LEIA TAMBÉM: Vozeirão de Amy parece que só melhora com os excessos
Essa verdade sem retoques deu expressão e sentimento à sua música. Sua vida, as decepções, as brigas, as opiniões diretas, os tipos no pub, as drogas, estava tudo ali nas letras. Quem mais teria coragem de tentar (e conseguir) um hit pop baseado na sua experiência na rehab?
“Rehab”, a genial música que lançou Amy para o mundo, tinha, como sua peruca bolo de noiva, cara de outro tempo. Soava como uma música de cinco décadas atrás, saído do forno da clássica gravadora Motown. Moldura perfeita para seu irresistível timbre defumado.
Depois veio o excelente álbum Back To Black, embebido em soul, jazz e R&B dos anos 50 e 60. Foi a grande sacada estética do produtor Mark Ronson. A sonoridade vintage era perfeita para uma estrela em descompasso com as cantoras de hoje. Amy estava assim ainda mais alinhada com suas musas – sofredoras como Dinah Washington, Etta James e Billie Holiday – , do que com as assertivas cantoras R&B de hoje, como Rihanna, Beyoncé e Janelle Monae.
JOGO PRA PERDER
Amy sofria porque era romântica demais. Como ela mesmo cantava, o “amor é um jogo pra perder” (“Love Is A Losing Game”). Ela queria um homem que a pegasse de jeito, um homem para se entregar com devoção. Em entrevista para a Rolling Stone, exemplificou com uma história da diva country Dolly Parton: “Ouvi dizer que ela acorda todos os dias quatro horas antes do marido para se arrumar para ele. Quatro horas! Acho isso muito legal.”
Com Blake Fielder-Civil viveu esse amor intenso e devoto, do tipo “nós contra o mundo”, espécie de Sid & Nancy da era tabloidiana. Brigas, pancadaria e copos quebrados foram se intensificando em meio a longas sessões entorpecidas. Candidamente, Amy resumiu a vibe dos dois como “Você ama pó e eu amo beque” (“Back To Black”).
O fim desastroso do relacionamento com Blake se somou a feridas mais antigas. Quando tinha dez anos de idade, o pai de Amy Winehouse saiu de casa para viver com a amante. O caso extraconjugal já durava oito anos e era de conhecimento de toda a família. Amy e o irmão Alex chamavam a amante de “a mulher de trabalho do Papai”.
Sua mãe Janis disse ao Daily Mail em 2007: “Amy nunca foi uma criança fácil. As pessoas falam da raiva nas músicas dela. Acho que muito disso é porque o pai dela nunca estava por perto.”
Na adolescência teve a típica dose de dilemas e angústias. A diferença é que, para Amy, o processo havia começado bem antes: “Sofro de depressão, acho. O que não é tão incomum assim. Muita gente sofre. Mas tive muitas daquelas ‘Ai, a vida é tão deprimente’ antes dos 12 anos”, contou ela à Rolling Stone.
Aos 27 anos, Amy Winehouse morreu sozinha na cama, em sua casa no norte de Londres. Triste e inevitável fim.
Texto de Camilo Rocha

